O colorismo nosso de cada dia

Ou ainda – nem tão bom pra branco, nem tão bom pra negro.

Em países de colonização europeia, que tiveram crescimento baseado na escravização de outros povos (não diminuindo a indígena e de outros povos, mas eu estou falando do escravismo negro) disseminou-se a ideia de que a colonia deveria parecer-se ao máximo com a metrópole. Em se tratando de Brasil, resumindo-se em frangalhos: tinhamos um problema.

Segundo o Censo de 1872 a população brasileira era majoritariamente negra e mestiça e, mesmo com o fim do tráfico negreiro, 15% desta população ainda era escrava. Esse número se dava pelos negros trazidos como escravos, pelos seus descendentes e pelos “bastardos” frutos de estupros e relações com senhores.

Para além disso, nessa época começa o processo de embranquecimento da população com a chegada dos primeiros imigrantes europeus, o que funcionava por um lado pois aumentava o numero de “brancos”, mas não diminuia o de negros, já que estes mesmos imigrantes mantinham relações matrimoniais entre si.

Mas não é nada disso que eu quero falar. O intuito desse texto é falar sobre as consequencias de tudo isso na atualidade. É fato que o Brasil é um país racista. Se você acha que não, muito provavelmente você é racista e não entendeu nada. Volte seis casas, reveja seus privilégios, estude mais e depois a gente conversa. E dentro desse racismo muitas correntes de luta começaram a surgir ao longo dos anos, basicamente com influência do movimento organizado dos EUA.

Muito bonito. Nossos irmãos e irmãs negras se unindo em torno de um bem comum e lutando contra a opressão do nosso povo. Mas, em tempos de pós-modernidade a luta não poderia ser apenas linda e forte. Tinham que nos arrumar formas de segregar quem estava se unindo e apontar dedos sobre quem merecia ou não fazer parte dessa historia. E isso, infelizmente, permanece até os dias de hoje. Em meio a isso temos escalas: pardo, moreno, neguinho, negão, preto azulado e por aí vai. Tudo com base no preconceito e nunca no reconhecimento de um povo que foi escravizado em detrimento de dinheiro e terras.

Em meio a isso perpetuamos essa lógica. Ah, mas fulana não é negra! Credo, ela quer ser chamada de negra, mas alisa o cabelo. Jesus, olha aquele negão que só namora loira! E por mais que eu “entenda” essas frases, não compactuo ou concordo com elas.

Parece que existe uma pizza a ser repartida e todos querem o maior pedaço. Os panafricanistas querem montar uma sociedade só de negros excluindo e oprimindo todos os que não são negros sob sua ótica, outros querem relações amorosas exclusivamente entre negros, outros querem apenas ter seu espaço, outros querem isso, outros querem aquilo e no fim disso ninguém consegue perceber que a pizza, na verdade, nós estamos assando, mas nunca foi para o nosso consumo proprio.

E então surge o tópico x sobre o que eu queria colocar em pauta. Em 1982 a americana Alice Walker escreve pela primeira vez sobre colorismo, fazendo uma analise muitissimo importante sobre os privilégios que negros com fenótipos mais brandos teriam sobre negros com traços próximos do que se cunhava como negativo. No entanto, apesar de tal análise nos servir como elo, o efeito foi o inverso. Hoje temos irmãos e irmãs querendo definir pertencimento e negritude do outro pelo tom de pele e pelos privilégios que estes possuem. Ou seja, ao invés de olharmos para os avanços na luta ou querermos que todos tenham direito, estamos querendo segregar uns e outros por “privilegios” que eles tem e nós não.

Primeiro, vamos entender uma coisa: por mais que um negro de pele mais clara ou cabelo alisado possua um ou outro privilegio perante a sociedade, se ele não se adequa ao que esta entende como bonito, bom ou positivo, ele sofrerá racismo, preconceito, estigmatização como um outro negro de pele mais escura. Segundo: não é o negro que define de quais privilégios ele irá se beneficiar, ou não. Na maioria das vezes ele simplesmente é levado pela corrente e acaba tendo sua vida facilitada, ou não, por estas questões.

– Um adendo: colocar as questões praticas da vida material como privilégio é negar todos os anos de luta e irmãos mortos até hoje. Ninguém nos deu nada de bandeja. Foi tudo fruto de muita luta, suor e sangue. Ninguém nos diz que hoje temos o privilegio de votar, ou o privilegio de escolher com quem nos relacionamos. Foram direitos conquistados, então, respeite nossos ancestrais que lutaram por eles!

O ponto é que isso não quer dizer, sob hipótese alguma, que ele seja menos negro, que sofra menos racismo, que tenha menos direito na luta ou pertença menos a uma raiz do que qualquer outro negro que seja. Este empobrecimento colorista do debate está apenas fazendo com que irmãos firam irmãos, a luta seja ainda mais segregada e o racismo continue. Vamos parar de querer fazer escala de melanina pra definir quem é negro e quem não é porque dessa forma quem perde somos nós. Não dá pra ficar apontando o dedo na cara do irmão que sofre com o racismo dos brancos tanto quanto nós e dizendo que ele “não sofre tanto assim” porque alisa o cabelo ou tem a pele um pouco mais clara. Ou ainda que ele não é negro porque seu pai era negro, mas sua mãe é branca e assim tem menos direito de falar em favor de sua etnia.

E assim vamos segregando. Segregando não só o movimento, mas a nós mesmos. Isso porque muitas vezes nos sentimos silenciados e perdidos no meio dessa guerra de quem pode mais e quem é digno de lutar, ficando presos no limbo da negritude. Não somos bons o suficiente para sermos brancos – e nem queremos – mas também não somos reconhecidos enquanto negros por aqueles irmãos que fazemos questão de defender e lutar junto. Somos pardos? Moreninhos? Escurinhos? Como se realmente negritude fosse definido por cor de pele e um cabelo alisado fosse acabar com o fato de que quando gritam: pega, ladrão! o suspeito é sempre negro.

Vamos acordar, meu povo. A população carcerária do Brasil tem cor, classe e o gênero está sendo cada vez mais equiparado. Em se tratando do Rio de Janeiro, 70% da população é negra, pobre, oriunda de favela. A população carcerária feminina cresce absurdamente. A saúde da mulher negra é uma vergonha, onde somos nós que morremos por falta de acesso a cuidados médicos, problemas resultantes de abortos clandestinos ou por nunca sequer termos ido a um médico, existem meninas em favelas do RJ que usam jornal como absorvente e saco plástico como preservativo. Homens negros que não sabem o que é um urologista.

Se procurarmos olhar atentamente aos que nos oferecem serviços, que limpam casas e escritórios, que tem o menor grau de escolaridade, os piores empregos, vamos observar que estes são nossos irmãos negros. Entre em um restaurante caro e me diga quantos negros você vê lá que não estejam servindo alguém. Ema exposição de arte: quantos negros, além da “moça da limpeza” estão lá? É deles que estamos falando quando falamos de racismo.

Racismo não é apenas quando te chamam de macaco(a), preto safado, cabelo de bombril, etc. As caras e consequencias dele vão muito além do tom de pele. São consequencias que vão definir os rumos da vida de milhares de pessoas que nem sequer terão a oportunidade de saber que estão sofrendo racismo – porque seus bisavós foram escravos, suas avós e mães empregadas domésticas e sua geração, graças a Deus, conseguiu trabalhar de garçonete e ser assediada num restaurante de rico na zona sul, de saber o que é colorismo, ou de conhecer a sua cultura ancestral.

Então, meu amigo, se você acha realmente que seus irmãos negros – que segundo você, não são tão negros quanto você – são o problema, é porque teu coração tá no lugar errado e você continua achando que isso é apenas sobre tom de pele. E o máximo que vai sair disso é que você vai sentar ai e ficar esperando uma pizza ficar pronta pra cortá-la em fatias e servir o branco mais próximo. E vai passar fome, tendo muita melanina, ou não.

No mais, aos que ficam no limbo da negritude, não se calem. Abram suas bocas contra a opressão, seja ela vinda de branco, negro, asiático, homem, indigena, mulher, quem for. A nossa negritude quem define somos nós, nossa ancestralidade corre nas nossas veias e a nossa cultura está estampada em nosso rosto. E se não tem branco pra tirá-la de nós, negro também não vai ter!

Carinhosamente dedicado à Tainá Rocha e a Carolzona, pretas lindas, independente do que digam!

O acordo do fim do sonho

Um acordo doloroso havia sido selado entre mente, alma e coração. Nada mais de alimentar sonhos, vontades, esperanças. Iria só caminhar com a maré. Nada mais de historias de principes e princesas, de vestido branco e um cantinho pra fazer comida a dois e dormir aconchegados. A vida real não permitia isso e os sonhos haviam sido substituidos por constatações duras que nada disso se tornaria realidade. Aquele sonho de ter alguém que corre pros seus braços morrendo de saudade após algumas horas distantes, que larga tudo só pelo prazer de sua companhia, que se coloca contra o mundo só pra não fazer alguém sofrer e entende o preço e o valor de ter e sentir prazer nas prioridades acabou. Não. Não era prioridade, não era saudade, não era sonho. A realidade era bem diferente disso. 

A menina tinha perdido aquela vontade de construir a sua família. E não a familia de filhos e cerca branca. Mas a família de ter alguém a seu lado que significasse sua familia. Que estivesse ao seu lado para tudo e largasse seus piores vicios por amor a ela. Que estivesse pronto pra mudar opiniões, desejos e caminhos, assim como ela se propunha, por outrem. Que a colocasse à frente de quem fosse e fosse sincero, e lhe dedicasse a sua vida. Porque no fundo era isso o que ela mais queria. Poder dedicar a sua vida a alguém que lhe devolvesse a dedicação. Que a aceitasse com suas opiniões conservadoras e a admirasse por não se vender às opiniões mundanas com tanta facilidade. Alguém que a entendesse nos seus dias mais carinhosos e a colocasse no colo, dizendo que era absolutamente normal ser romântica, porque ela não precisaria dizer que nos dias em que era mais romantica eram exatamente os dias em que mais precisava de romantismo, que mandasse que ela estivesse pronta que em minutos estaria na porta dela e que não fizesse perguntas, apenas obedecesse porque aquela noite era dela e tudo seria surpresa. Alguém que ligasse só pra dizer que ama. Ou que mandasse flores. Alguém que fizesse surpresas. E agrados. E demonstrasse apreço em ser agradado. Porque agrados são necessários, surpresas esquentam a vida e a cama, além de manter acesa a chama. 

A menina sonhava com amor. E paixão. E não aquele amor antes do sono, mas aquele amor desprevenido, que não tem hora nem lugar. Que não segue regras de comportamento ou horarios. Que vê o outro como unica necessidade, como já havia sido um dia. Que conversa sobre vida e futuro com o sonho no olhar e tem a ansiedade de torná-los realidade o quanto antes porque tudo é uma comemoração. E que a conhecesse em seus minimos detalhes. Que soubesse cada motivo de cada sorriso sem que precisasse ser dito. Porque ela era daquelas mulheres que fazia uma cara diferente pra cada coisa. E um trejeito pra cada pensamento. Quando estava com vergonha fazia assim, quando estava de outro jeito fazia assado, porque mexia no cabelo, porque mordia o canto da boca. E ansiava por alguem que conhecesse esses detalhes, que só quem presta atenção suficiente percebe. 

E ansiava por construir a vida como alguém que esta submerso anseia pelo ar. Não pra daqui a tempos, num futuro distante porque entendia que o futuro começou ontem e com omissões e “um dia” não se constroi nada. Quem quer, faz. Quem finge querer arruma desculpa e havia descoberto isso das formas mais duras possíveis. O Mago Negro havia dito: não desista do seu sonho. Ele é muito bonito, valoroso e um dia se realizará. Mas já era tarde demais. E então ela ansiava por tanta coisa que essas coisas tomaram vida, mesmo que só dentro dela. E vida que pulsa dentro de nós é sonho. Mas sonho não fazia parte do acordo. 

 

 

 

Lembranças de um presente.

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Lembro como se fosse hoje o momento em que nossos olhos se cruzaram a primeira vez. Como em cada palavra que eu dizia era um convite para que você continuasse sentado ali, bem na minha frente eternamente, só pra que eu tivesse o prazer de olhar nos seus cálidos olhos e analisar cada traço seu. Lembro do primeiro beijo, do primeiro abraço, da primeira saudade, que surgiu logo que eu entrei no ônibus na central e você não estava ao meu lado. Lembro de quase explodir um sorriso em meu rosto quando me ligou e ficamos uma hora ao telefone falando não sei o que, já que só o som da sua voz me bastava. De toda a conversa eu só lembro de como você parecia encantado e como eu queria estar perto de você, rezando para que o dia seguinte chegasse logo e você realmente cumprisse o compromisso de nos encontrarmos.

Eu nem dormi direito aquela noite. Parecia até adolescente besta sonhando acordada deitada na cama. Depois na aula eu conferia o sinal do celular de cinco em cinco minutos para que não desse nada errado e mesmo com uma chuva gigante e deliciosa você apareceu. Quer dizer, literalmente apareceu, já que nos esbarramos. E eu queria pular no seu pescoço mas não sabia se podia, se devia… Achei melhor não fazer nada. E caminhamos na Pasteur, falamos de RPG no carro, fomos als mirante, nos enrolamos no caminho pra Barra.

E ao longo desse tempo fomos construindo tantas lembranças deliciosas e marcantes… A primeira vez que fui ao Maracatu e  quando me viu ficou branco (mais! Rs) com os lábios ligeiramente abertos e sem saber como agir. Também como o casamento do Thiaguinho e a mensagem que te mandei. Mas não menos importante foi o seu olhar e a forma imponente e orgulhosa que caminhava de mãos dadas comigo, como se pudesse superar qualquer obstáculo só por segurar minha mão.

Lembro da primeira vez que dormi ao seu lado e como foi um sono tranquilo e seguro. Do dia em que fui assisti-lo jogar futebol e acabou sendo a primeira vez em que fui a sua casa. Talvez eu nunca esqueça a sensação gostosa e inocente que me cruzou ao entrar por aquela porta e ver paredes cor de mostarda, brinquedos de criança e o piso de madeira. E aí eu dormi lá e pela manhã não sabia como agir. Confesso ainda não saber muito quando acordo e não estamos sozinhos na sua casa ou quando sua mãe se refere ao seu quarto como nosso quarto. As informações ainda estão em processamento.

São tantas coisas pra lembrar. Todas especiais, algumas mais fortes. A conversa que talvez tenha sido a mais sincera da minha vida no chão da varanda do seu pai, regada a cerveja, onde eu encolhidinha por vezes chorei nos seus braços e você me confortou e sem nenhuma palavra fez meu coração acreditar que tudo o que havia se passado não teria mais importancia alguma. Ou o dia em que numa intensa crise nervosa eu estive aos prantos às quatro da manhã e você, mais uma vez, me aninhou e me deu amor.

Lembro das manhãs acordando ao seu lado com o nosso Pinguinho de gente se metendo nos sonhos e preguiça. Momentos únicos. Você se abrindo pra mim e se permitindo momentos em que eu tentei ser a sua força. Ou ainda conhecer a sua familia e, vendo que eu estava completamente deslocada ou desprotegida, sentia seu olhar de cumplicidade e carinho, mesmo que do outro lado do cômodo enquanto conversamos à mesa debatendo feminismo e política como se eu já os conhecesse há anos – e eu, nervosa, não calava a boca. Mas tudo valeu a pena quando ao final sua avó me abraçou forte e disse que gostaria de me receber em sua casa novamente.

São poucos meses, mas muitas lembranças. A festa no IB onde você fez com que eu me sentisse a mulher mais especial do mundo dizendo que queria ir embora pois queria minha companhia só pra você. Eu quis chorar naquele momento. O dia em que conheceu meu pai e, pela primeira vez eu tive efetivamente orgulho de quem eu apresentava a ele. Meus avós nem se comenta, já que eles arrumaram outro netinho. As conversas carinhosas e todos os momentos engrandecedores com sua mãe…

Nossa primeira viagem, nossas noites de comilança, amor e filmes nas tão abençoadas viagens do seu querido pai. Nosso A Dois (ainda caseiro, quem sabe um dia…), o dia em que conheci seus amigos e tive mais medo DK que conhecer sua familia. E então veio o dia em que eu cheguei na sua casa e não te encontrei. Claro, até onde eu sabia você não estaria. Mas havia velas acesas, um babydoll lindo e flores sobre a cômoda. Eu sabia que você estava ali, bastava eu encontra-lo. E quando eu encontrei você me deu um abraço tão forte e carinhoso que a minha dor de cabeça passou na hora e qualquer resquício de tristeza que eh tivesse de você sumiu. Eu vi o seu esforço real em fazer algo especial pra mim, pra nós e depois fomos cozinhar juntos. Obrigada pelo dia mais lindo e romântico que eu já tive. Aliás, pelos dias…

Pra terminar, porque senão eu falo um por um, lembro do dia em que eu te pedi em namoro. Sim, eu te pedi em namoro. Eu e essa minha incessante necessidade de definir o que esta se passando e você disse que sim. Simplesmente pelo fato de você ter dito que sim que eu tenho tantos momentos maravilhosos na memória até hoje. E no momento em que eu te pedi em namoro, coisa que eu nunca havia feito, o seu olhar mais uma vez me ganhou. Era um olhar de admiração e carinho tão fortes que eu queria repetir esse momento sempre que me sentisse mal, pois ele curaria qualquer dúvida ou tristeza.

Hoje você me deu mais um momento desses. O seu olhar desde o momento em que nos encontramos e principalmente no corredor, antes de abrirmos a porta, foi mais uma certeza de que eu tomei a melhor decisão que eu poderia tomar em 24 anos de murros em pontas de faca. Mais um dia 12 se aproxima e mais lembranças maravilhosas você me dá a cada dia que passa ao meu lado.

Que essas lembranças nunca se desfaçam, que esses olhares nunca se percam, que nosso amor sempre cresça e que encontremos sempre formas de renovar tudo de maravilhoso que temos entre nós. Obrigada por cada olhar, cada sorriso, cada lembrança, cada lágrima e cada… Uhn, deixa pra lá. Eu te amo.

Losing my religion

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Fé. Para alguns, o todo. Para outros, parte de um todo. Para os céticos, perda de tempo. 

Meu caminho com a fé começou relativamente tarde, aos dez anos, mas de alguma forma sempre foi uma fagulha dentro de mim esperando para ser acesa. Passei pela Igreja Messiânica, segui preceitos da Wicca, fui batizada e fiz primeira comunhão na Igreja Católica, frequentei alguns centros de Umbanda, voltei pra Igreja Messiânica e voltei pra Umbanda. Pro que eu pensava ser de vez. 

Lá eu me encontrei. Conheci partes de mim que eu nem sabia que existia, me aproximei de algo superior que passou a me acompanhar a cada dia, em cada lugar, mesmo que de formas diferentes. Na Umbanda eu construí minha identidade, minha força, meu chão. Era como um caminho a seguir que já estava certo para mim, adormecido em algum lugar no meu coração esperando o momento certo de ser posto em prática. 

Duas das coisas que mais me fascinam na Umbanda são o amor e a ligação com a natureza. A possibilidade da expressão da fé de inúmeras formas diferentes e nem por isso ter apenas uma como correta. A sensação do amor divino, da fé, da caridade dentro do peito de uma forma genuína quando se trabalha sem saber a quem, sem querer nada em troca. 

Mas de um tempo pra cá isso mudou. Talvez essa seja a crise de fé que realmente esteja me abalando pois está fazendo com que eu questione os dogmas que eu tinha como supremos, que eu sempre acreditei e levei em meu coração. E só agora eu pude perceber que eu tenho estado em crise há muito tempo. Desde que eu sonhei em ter um lugar pra trabalhar, onde eu me sentisse parte daquela casa, parte de uma família, amada e amando. Minha ficha caiu de que eu nunca tive isso. Que eu tive, de início, um lugar lindo, caridoso, que me ensinou muito e fez muito por mim e que serei eternamente grata, assim como fez por outros. Mas que eu nunca fui especial. Nunca fui efetivamente filha daquele lugar para quem estava lá e com isso não conseguia sentir em meu coração.  Imagem

E que assim cumpriu seu papel na minha vida. Me iniciando no que eu precisava para cumprir minha missão. Mesmo assim eu fiquei de cama quase dois meses quando saí de lá, tamanha era a importância do lugar pra mim. A saída não foi agradável e mora ainda em meu peito uma vontade de voltar lá pra colocar as coisas em pratos limpos. Mas não sei se eu aguento isso agora e se faria mais bem do que mal. Por ora, deixe as coisas como estão.

Aproximadamente seis meses depois eu comecei a trabalhar em outro lugar. Um lugar fundamentalmente diferente do que eu estava anteriormente. De início, me fez bem, pois me deu forças pra continuar de pé quando tudo parecia ruir. Passava dias e noites na cama sem forças para nada e foi lá que eu retomei a minha fé e me pus novamente de pé, com a ajuda dos meus guias e do axé da casa. Mas com o tempo isso foi mudando, dissipando.  O que antes era prazeroso se tornou uma obrigação, simples cumprimento do dever. Eu sentia prazer em participar das giras simplesmente pela proximidade que isso que trazia com meus próprios guias, em incorporá-los e, por mais vaidade que isso pareça, era pelo bem que eles faziam. Como não deram nomes ainda, não dão consulta, logo, eu sentia que o trabalho nunca estava completo. Assim sendo, o que me restava era sentir a pontinha de amor e alegria em tê-los perto de mim, tão perto quanto uma incorporação pode deixar. 

E hoje eu não sinto mais vontade de trabalhar lá e estou perdendo a vontade de trabalhar de vez. Ainda não me sinto parte daquele lugar e isso me entristece e me enfraquece. Terreiro pra mim é o meu chão, a minha terra, o lugar onde minha cabeça toca e eu encontro meu lar. E sinto que lá não é esse lugar, mas também já perdi a fé de um dia encontrá-lo. Se meu sonho foi um dia encontrar um lugar e trabalhar sempre, hoje em dia minha vontade é não querer mais nada disso, não sonhar mais, não alimentar esperanças ou expectativas sobre nada com relação a minha fé pois tudo é incerto. Por mais que nos façam crer nisso, não é um sistema meritocrático onde você dá e recebe. Você faz, trabalha, se doa, ama e nem sempre o retorno vem. Enquanto tem gente que não faz esforço algum, não ama, não se doa, nem faz parte de fato daquilo e aquilo não faz parte dela e alcança o que você mais quis em seu coração. 

Por mais egoísta e vaidoso que isso soe, eu sou humana. Desisti de querer ser perfeita e superior há muito tempo e comecei a querer sentir. Se eu estiver com raiva, que eu sinta raiva. Se eu estiver triste, que eu sinta tristeza. O caminho é tortuoso e cheio de pedras, não adianta tentar fugir. Você só aprende se passar e para passar eu preciso sentir. Não dá pra ser um engodo onde tudo é bonito, singelo, superficial. Não quando se trata de uma das coisas mais importantes pra mim. Ou se tratava. 

Talvez isso seja amor demais. Talvez eu leve minha religião a sério demais e ache que todos os que penduram uma guia no pescoço deva levar também. Usar uma guia pra mim vai além do instrumento de trabalho e proteção. Uma guia é um sinal de amor, de cuidado, de proteção de alguém que te escolheu pra ser amado e protegido, seja uma casa ou uma entidade. Firmar um santo é algo muito importante pra ser levado simplesmente como um meio de melhorar de vida. Incorporar não é só uma descoberta de coisas novas e sensações. É sobre doar uma parte de si e receber uma parte de outro. É uma das ligações mais fortes com um guia pois é o momento em que você se destina a um bem maior e cumpre seu propósito, ajudando a si, ao guia e ao próximo. 

E quem eu vejo evoluir mais nesse processo, ser “cuidado”, receber mais é quem menos dá. É quem usa a fé como trampolim, é quem não ama o chão que pisa, que não tem conhecimento sobre o que deveria ter pra pisar num terreiro e usar uma guia no pescoço, quem não tem amor verdadeiro pela religião que é, para mim, a mais bela de todos os amores. É um amor que não cabe em mim, que me emociona, que move. Não apenas pelo meu caboclo, minha velha, meus Exus, minha menina e meus orixás, mas por todo um culto ancestral que faz parte de quem eu sou e me entendo por gente e por espírito.É quem não entende que esse caminho é quase uma via de mão única de amor, caridade, abnegação, doação. E isso me entristece, me dilacera, me deixa em dúvida sobre tantas coisas que a cada dia que passa, por mais que me digam para não perder a minha fé, ela parece estar se esvaindo entre meus dedos. 

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“Pra você que tem fé

Respeite a cabeça

De quem tem coroa

De quem tem cocar

Respeite a nossa Aruanda

Respeite os nossos Orixás

Clareia Zambi

Confesse a sua fé

Bater cabeça, meu filho

Respeito é!”

Não apenas respeito, mas tão importante quanto, um ato de amor. 

A babá é negra.

 

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É mais fácil fechar os olhos, não atentar para os fatos e fingir que não vê, que não existe. Ou ainda, esconder-se sob o discurso de que todos são iguais e são tratados da mesma forma, que existe apenas uma parcela da sociedade que quer mais visibilidade ou tratamento prioritário. Mas a realidade é que mesmo que você não veja, mesmo que não acredite, mesmo que não aceite, o racismo está presente e faz milhares de vitimas diariamente. Tanto para quem não vê ou para quem pratica, e mais fácil esconder o racismo. Uma vez que é socialmente construída a ideia de que “é feio ser racista” e então, fruto de lutas, passou a ser crime, o racismo no Brasil é cada vez mais velado e justificado. 

Então, exatamente a você, fica aqui o meu conselho: abra os olhos e encare a realidade. Enxergue minuciosamente – às vezes está bem diante dos seus olhos – para além da aparência. Tente captar a essência das coisas que vai estar lá e você vai conseguir perceber que o racismo é tão arraigado na nossa sociedade que, em meio a teia capitalista, arrumou formas de ampliar suas vítimas partindo de uma diretriz apenas étnica e se tornando também social. Isso porque o racismo serve bem ao capital uma vez que este precisa excluir camadas da sociedade, seja pela superexploração formal ou seja fazendo com que estes se mantenham sempre às margens não tendo acesso e, consequentemente, não ingressando no mercado formal de empregos, mídia, cultura, dentre outros.

Um exemplo simples e que pode ser percebido ao caminhar pelas ruas: as empregadas domésticas, babás, flanelinhas, são negros. Quando você caminha de mãos dadas com seu namorado – que é branco – por um dos shoppings mais caros da cidade e as pessoas olham como se estivessem brincando de jogo dos sete erros. Ou ainda, quando você participa da festa da família do seu namorado e você e a empregada são as únicas negras e isso gera não apenas um desconforto, mas faz você analisar o ambiente e as pessoas. O que acontece? Alguém te confunde com a babá, ajudante, ou qualquer coisa do tipo e você não sabe se ri, chora, se impõe e causa um mal estar na família ou ignora. Casos dissidentes da subalternalidade da classe trabalhadora, citando aqui em especial a população negra, que sempre ocupa cargos de subserviência e as pessoas encaram com normalidade uma vez que o Brasil possui um passado baseado em economia escravista, burguesa e inserida num processo de industrialização/capitalização tardia. 

Os meninos em situação de rua ou dependentes quimicos que vêm sofrendo pelas mãos de justiceiros de bairros são negros e pobres. Ou ainda o ladrão, que é sempre negro, a camada da população que mais morre é a negra e pobre, oprimida por um sistema  econômico e um Estado que reproduzem no seu âmago o preconceito de alguns em favor de outros, Estado este que possui no seu aparelho repressor negros que não se reconhecem como negros, mas, ainda assim, quando se deparam com um semelhante que ocupa um espaço de marginalidade social, não se identificam no outro e apenas oprimem, agridem, matam. 

As vicissitudes do racismo se colocam de forma mais complexa e opressora, ao passo em que as lutas por reconhecimento avançam, o lado conservador ganha espaço travestido de (in)justiça social. Mas a pergunta é: justiça social para quem? Se a base da nossa sociedade foi feita com sangue, suor e lágrimas de seres humanos escravizados há 450 anos atrás e sofrem as consequencias disso até os dias atuais? A quem serve esta justiça que toma como exemplo de opressor exatamente os que são oprimidos por todos os lados deste que seus ancestrais nesta terra pisaram e sofrem na pele a passagem de valores racistas, preconceituosos, homofobicos, machistas de pais para filhos, fazendo com que crianças de três anos apontem os dedos dizendo que a negra é a empregada e a outra negra é a babá? Ou mais, a que serve esse modelo de sociedade, onde negros que não são empregadas domésticas, babás, flanelinhas, ladrões, traficantes, marginais (não em delito, mas em acesso), excluídos do acesso à cultura, educação, saúde de qualidade – já que o Estado não proporciona – por estarem sempre nas camadas mais baixas de poder aquisitivo, são exceções? 

Abra os olhos. Mas não abra os olhos e se mantenha parado. Não abra os olhos e, principalmente, se mantenha calado. O racismo, seja ele étnico ou social, está aí. Só não enxerga quem não quer. 

 

Sobre egos e principes

Toda mulher quer ser a melhor. A melhor amiga, a melhor amante, a melhor na cama, a mais amada. Não sei se isso é a versão feminina do conto do principe encantado ou se é apenas uma celebração ao ego.

Da mesma forma que queremos ser, temos em nossa mente o ideal, aquilo que passamos a vida sonhando em ter em nossa vida, ao nosso lado e dentro disso está aquele homem que nos idolatre. Não de uma forma cega e indubitável – já que a duvida pode ser um elo tão forte quanto a certeza, mas de uma forma leal, como se ele tivesse certeza da mulher que escolheu pra ter ao seu lado e ela fosse a melhor em todos os quesitos das que ja passaram e, num caso remoto, ainda passarão pela vida dele.

Mas nós não queremos pouco. Queremos ser melhores até das que nunca vão passar. Por exemplo, queremos que na conversa do futebol de segunda-feira ele não seja mais um a reclamar de nós que sofremos e nos colocamos sob verdadeiros regimes de tortura para estarmos sempre bonitas, gostosas, macias e bem cuidadas para ele. Que aquele que temos ao nosso lado ande sempre com um sorriso no rosto bem largo e genuíno. Que falem bem da gente pros amigos que reclamam de seus casamentos frustrados, que nos elogiem e nos façam sentir melhores do que todas as mulheres que já tiveram.
 
No fundo, nós sempre competimos com as ex, as amigas, as amantes. Temos sempre aquela ideia de que encontraremos o encaixe perfeito, a nossa metade da laranja, nosso principe encantado e seremos, por fim, a mulher dos sonhos do nosso principe de contos de fada. No sonho e nas histórias de Walt Disney isso sempre é possível. Maas, se a vida imita a arte, por que na vida real isso parece impossível?

 

A você…

É, meu bem, você esta crescendo, amadurecendo e vendo as dificuldades de se tornar um adulto nesse mundo cão. Para alem das cobranças que nos sao postas, as que nós colocamos sobre nos mesmos tem potencial construtivo ou destrutivo, dependendo de como lidamos com elas. Objetivos de vida, de relacionamento, de profissao e de sermos aquilo que os outros e nos mesmos esperamos que sejamos.

Em meio a isso tudo nos sentimos como baratas tontas querendo abraçar o mundo com as pernas, equilibrando a vontade dos outros com as nossas e esticando as pernas nos ponteiros do relógio e as mãos nos bolsos, ja que tempo e dinheiro são escassos. Tempo e dinheiro são administrados para se tornarem nossos aliados nessa empreitada, não deixando que eles nos consumam. Mas é necessario que se estabeleça não apenas metas, mas prioridades para que as metas sejam concluidas da melhor forma possivel e junto a elas tenhamos crescimento e sensação de dever cumprido não apenas com os que esperam algo de nós, mas do nosso proprio coração.

Dentro disso, se algo me foi ensinado nos poucos anos de vida que possuo foram duas coisas sobre as quais você já me ouviu falar. Primeiro que você deve ser sempre sua prioridade. Você sendo sua prioridade você estará bem, firme e em condições de fazer o que deve e ajudar a quem quiser. Ninguém dá o que não tem pra dar e se você não estiver bem, não estará em condições de ajudar ninguem. Se você estiver bem poderá chegar onde quer e ajudar os que estiverem pelo caminho ou ao seu redor.

Segundo é que ninguém ajuda quem não quer ser ajudado. E isso não está apenas no ato da ajuda direta, mas da simples presença das pessoas em nossas vidas. O gasto de tempo e energia necessarios para a manutenção de algumas pessoas que nem sempre nos trazem coisas positivas, mas que continuamos por tentar ajuda-las com a nossa simples presença, amizade, carinho ou atenção em forma de ajuda indireta, uma vez que somos parte de um todo. No entanto, cabe a nós mesmos identificar nesse todo o que nos ajuda, o que nos atrapalha e o que podemos fazer mediante essas situações, deixando de carregar pedras na mochila que não deveriam estar lá.

Livre-se das mágoas, dos sofrimentos, das tristezas. Elas serviram pra te dar ensinamento necessario pra chegar até aqui, pra te construir enquanto homem e para que delas tire lições para não cometer os mesmos erros e ter atitudes mais acertadas no futuro. Mas de nada lhe serve um coração pesado, uma mente negativa e objetivos soltos pelo caminho. Deixe seu coração ser leve pra voar, a mente livre e positiva pra ilunibar seus caminhos e ajuda-lo a alcançar seus sonhos. Tem um novo caminho, novas possibilidades, novos erros, novas emoções, uma nova vida te aguardando. Basta você querer vivê-la.

E aprenda a dizer não. Um não, às vezes, faz mais bem do que um sim. Ensina mais, ajuda mais e faz crescer mais. Nada vem fácil nessa vida e ninguém disse que seria, mas cabe a você decidir o que fazer com as dificuldades e como lidar com elas. Potencial, ajuda, inteligencia e capacidade você tem de sobra e eu estarei ao seu lado nesse caminho enquanto você permitir porque tem sido, mais do que uma alegria te amar, uma honra dividir sorrisos, lagrimas, dias, noites, enfim, a vida com você. Obrigada por estar ao meu lado porque ei não te troco nem por uma fábrica de Kitty Kat.

 Eu te amo. Beijo e tenha um novo e ótimo dia!

Sobre a monogamia

Decerto a monogamia nao foi uma invenção romantica pensada pelos casais apaixonados e decidimos a perpetuar seu amor apenas entre duas pessoas. Sendo esta uma idealização movida pela economia, evoluiu em meio às relações sociais modificadas com o passar do tempo.

Para além disso, sob a égide de uma sociedade machista e patriarcal, tais instituições foram cada vez mais sendo arraigadas a fim de garantir os tais -corretos- valores da moral, da familia e dos bons costumes. As mulheres deveriam ser fiéis a seus consortes devendo-lhes obediência, amor, cuidado e exclusiva atenção, enquanto homens eram livres para explorar os prazeres carnais que a vida lhes oferecia.

Hoje em dia, tais valores, ao mesmo tempo que são contestados por aqueles que não se adequam às correntes que os prendem, são afirmados contraditoriamente pelos mesmos, sob a referencia de que o amor verdadeiro é aquele que se mantém fiel e leal, sendo a possibilidade da existencia do desejo por outra pessoa uma evidência de que o amor não vai lá muito bem.

Mas, num mundo onde tudo é permitido e as delicias da vida são postas à nossa frente não apenas como possíveis, mas como testes de resistencia à nossa própria vontade e ao que professamos como belo, correto e duradouro, seria possivel ao homem – sem questão de gênero, por favor – manter-se resistente não ao ato, mas a vontade de colocar pra fora seus desejos socialmente e romanticamente errôneos? E mais, até que ponto é correto ensacar tais desejos bem fundo no âmago do ser (até que um dia eles vençam a guerra e se libertem das correntes que os amarram) e, possivelmente, fingir estar satisfeito com a condição em que se encontra para não ferir ou perder quem está ao lado?

Respostas eu também não tenho. e cada vez que eu paro pra pensar nisso surgem apenas mais perguntas. Em meio a isso a unica resposta possivel seria de que cada um deve fazer aquilo que lhe deixe feliz. mas, é impossivel não questionar: é realmente o fim do amor de Romeu e Julieta, idealizado, romantizado, fiel e belo até o fim?

 

Broken dreams, broken wings

A minha mente voa alto. Sempre voou. Mas voa alto com os pés no chão.

Eu nunca consegui ser daquelas pessoas sonhadoras que estão sempre fantasiando impossibilidades. Meus sonhos sempre foram baseados na minha realidade concreta, na possibilidade de se tornarem realidade. Creio que nem foram tão sonhos assim. Foram mais vontades viabilizadas em se tornar realidade.

Mas no meio disso, em algum momento, eu me permiti sonhar. Eu sonhei e lutei na construção de coisas que eu achei sinceramente que se tornariam realidade. Sonhei com uma casa, com o cheiro de café pela manhã, com viagens e datas comemorativas, com uma cerimônia na religião linda que eu professo, com uma vida a dois e depois com uma criança linda de olhos brilhantes que seria a razão do meu viver. Eu sonhei em não ser mais sozinha, em não ter que me virar sozinha ou viver só para mim mesma. Sonhei em passar a gostar de Natal e aniversário pois seriam datas divididas com a minha familia, aquela que eu criei e escolhi por mim mesma e não me foi imposta. Sonhei em dividir viagens, momentos, em confiar, em crescer, em viver e tudo isso foi arrancado de dentro de mim.

Meus sonhos foram quebrados e quando eu vi já estavam estilhaçados no chão em mil pedaços. Já não existiam mais, não eram mais uma possibilidade, mas sim, sonhos de criança inspirados no conto de fadas perfeito que só se realiza no filme de Hollywood. Eu não consigo mais sonhar. Eu não consigo mais querer. Nem sei se quero sonhar. Pra quê? Pra alimentar mais uma série de vontades que nunca se realizarão? Pra dar vazão a um lado meu que foi suprimido por tanto tempo e quando teve oportunidade de ser exposto tomou na cara da realidade dos fatos e do desrespeito das pessoas? Não. Eu não vou me permitir sonhar novamente. Eu não quero sonhar novamente. Não quero ter que catar meus cacos pelo chão quando eu me quebrar vendo a realidade destruir meus sonhos mais uma vez. Não quero ter que ver o sinal de alerta apitar bem alto na minha mente quando as coisas estiverem erradas e eu me obrigar a fingir que não estou vendo para proteger um ideal.

Minhas asas de anjo se quebraram. Minha ingenuidade, se é que algum dia existiu, se quebrou com elas. Minha capacidade de confiar, que sempre foi ínfima, hoje é quase nula, porque já foi testada tantas vezes a troco de nada que cansou de testes infundados. Cansou de confiar em um caminho que não levaria a lugar algum e me deixaria perdida no meio do nada, cansou de ser jogada fora quando tudo aquilo significaria o mundo. Meu coração cansou, eu cansei.

E assim eu aprendi a viver o hoje. A não esperar demais das pessoas porque vontades mudam, sentimentos se transformam e valores se quebram. O mundo imediatista tem feito cada vez mais com que as pessoas troquem o que elas mais querem na vida pelo que elas querem no momento e isso é muito complexo para uma pessoa que não sabe desistir. Eu nunca soube desistir. Talvez continue não sabendo. Talvez eu só tenha aprendido a lutar por mim mesma e não pelos outros. Fui obrigada a aprender a querer agora sem esperar pelo amanha, porque nem sempre o amanhã vai existir. Fui dilacerada e reconstruída tantas vezes que não sei se ainda resta linha para me remendar ou se ainda restam espaços para segurar a agulha. Não é por falta de fé, por falta de coragem, por falta de vontade. É porque eu não consigo mais acreditar que sonhar vale a pena. É porque alguns sonhos são melhores na fantasia e eu sou péssima em viver de fantasia. É porque eu precisei arrumar outra coisa que me movesse que não o amanhã, porque o amanhã pra mim geralmente é desastroso.

Eu vi meus sonhos serem quebrados. E com ele foram junto minhas asas. Agora eu caminho de pés no chão. Um na frente do outro, me certificando de que o solo sob eles esteja bem firme e direcionado porque se o chão me faltar, eu não tenho quem me segure e nem mais asas para voar.

Fênix

Imagem

Eu tenho um dragão tatuado nas costas. Simboliza a força e a espiritualidade. Mas começo a achar que deveria ter feito uma fênix. A fênix que renasce das cinzas e se torna ainda mais bela e poderosa. 

Narcisismo à parte, não que eu me ache bela ou poderosa, mas eu já fui ao chão tantas vezes, já me desfiz para me recriar novamente por tantas coisas diferentes em situações diferentes que o simbolismo da fênix cairia melhor. Eu já quis morrer por amor, já sucumbi pela dor, já desfaleci pela decepção. Já perdi minha força, minha fé, meu chão e ainda assim arrumei formas de catar meus cacos, organizar minhas cinzas e, mesmo depois de ter explodido em mil pedaços e não ter ninguém para me ajudar a catar os cacos, me pus de pé. 

De pé, mais forte, mais firme. Por vezes sentindo nada, completamente fria e anestesiada de qualquer estímulo externo. Por vezes, sentindo demais, esperando que o peito explodisse por tantos sentimentos ao mesmo tempo. Dividida entre a eterna dualidade de razão e emoção, sentir nada e sentir tudo. Brigando contra a minha essência mais pura e forte simplesmente para me proteger de sofrer. No meio disso tudo eu perdi sonhos, desejos, vontades. Lá se foi meu pedido de casamento de joelhos com uma linda cerimônia na minha sagrada Umbanda, meu filho que seria o mais amado do mundo, chegar em casa e preparar o jantar para o homem que seria não apenas meu amor, mas também meu melhor amigo. Lá se foi o sonho de ter uma família só minha que me amasse independente de meus defeitos e problemas, que estivesse ao meu lado nas datas tristes, felizes e que eu pudesse fazer deles, assim como eles de mim, o porto seguro. E o que substituiu tudo isso foi a frieza, o pé no chão. O aprendizado de não criar expectativas, não depositar cem por cento de confiança em nada e ninguém, pois no fundo algo sempre acontece e o chão parece sumir dos meus pés. 

Eu não desaprendi a viver. Ao contrário. Aprendi a me colocar em primeiro lugar, a dizer não quando necessário, a amar não passando a mão na cabeça, mas permitindo que a outra pessoa cresça independente das minhas vontades e dos meus desejos. Aprendi que amar, às vezes, é deixar ir, é soltar a mão, quando caminhar junto se torna pesado demais. E isso se resume a tudo. Amigos, amores, família. Ninguém obriga ninguém a nada e eu, principalmente, parei de obrigar a coisas pelos outros, para fazer a todos ao meu redor felizes quando eu realmente não estava. Essa resignação ao pé da letra não estava me levando a lugar nenhum que não fosse à cama por horas a fio em lágrimas intermináveis. 

No meio disso eu reencontrei a minha força, meu equilíbrio, meus valores, minha essência. Relembrei que na minha cabeça pesa a coroa de uma rainha e de um rei. A rainha do amor e o rei da razão e cabe a mim decidir qual coroa usar em que momento e nunca, mas nunca mais, permitir que ninguém me desrespeite, me pise, diminua, fira, faça com que eu me sinta mal por ter minha opinião, minha voz. Que o escudo da humana guerreira nunca mais sirva para fazer mal a mim mesma, encastelando-me num pesadelo fantasioso que parece não ter fim. Mas eu pus um fim. Que eu nunca mais me sinta menos do que o homem que deveria estar ao meu lado e que ele não seja o algoz desse sentimento. Não, eu não me calarei. O homem que me botou no mundo e teria todo direito de me mandar calar a boca nunca o fez. Nunca levantou a voz ou a mão para mim. Sempre nos respeitamos pelo olhar, pelo coração e eu não permitirei nunca mais que isso seja diferente pois eu não sou mulher de abaixar a cabeça. Nunca fui. Existem momentos e momentos, mas a esses que me refiro são bem específicos e são momentos em que mulher alguma deveria abaixar a cabeça pro homem que tem ao seu lado ou que faz figuração ao seu lado na hora que interessa. 

Eu vou gritar se for preciso. E que não seja preciso mais do que isso. Que não seja preciso nem o grito pois da proxima vez que os sinais forem tão claros assim, eu dou o rabo de arraia e caio fora. Pois eu mereço mais, muito mais. Pois eu aprendi a renascer das cinzas do meu proprio fogo. Aprendi a bater as asas e voar alto. Pois meus pais criaram uma princesa que aprendeu a ser rainha sozinha e rainha manda, não obedece. 

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